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“A ciência deve ser multilíngue”: Peter Funke em entrevista

3/1/2012

Em muitas disciplinas científicas, a língua inglesa ganha cada vez mais importância. O vice-presidente da Fundação Alemã de Pesquisa Científica (DFG), Peter Funke, defende, ao contrário, a diversidade idiomática no campo das ciências.

Em que língua o senhor publica seus ensaios?

No índice de minhas publicações, predominam aquelas em alemão. Mas publiquei também muitos artigos em inglês e alguns em italiano, espanhol e grego moderno. Normalmente escrevo meus ensaios primeiro em alemão e, se necessário, mando traduzi-los. Não porque tenha uma aversão a outros idiomas, mas pela impressão de que consigo me expressar de maneira mais concisa e precisa em minha própria língua materna.

A ciência é internacional

Isso quer dizer que o senhor quer disponibilizar suas publicações também ao leitor de fora do país...

Com certeza. Não se pode pensar o trabalho com pesquisa de outra forma. Os Estudos Clássicos sempre tiveram uma orientação internacional. O intercâmbio para além de todas as fronteiras é praxe. Eu mesmo faço há 20 anos pesquisas de campo na Grécia e colaboro intensamente com historiadores e arqueólogos dos mais diversos países, que por sua vez realizam pesquisas em todos os continentes do planeta. O conhecimento fundamentado dos mais diversos idiomas – tanto antigos quanto modernos – é, portanto, indispensável.

Inglês como língua franca

Então o idioma científico não precisa necessariamente ser o inglês, mas depende do tema em questão?

Com isso, não quero negar que o papel do inglês como língua franca seja incontestável. Mas justamente na função que uma língua franca sempre teve: a de servir ao entendimento entre cientistas de países completamente diferentes.

Para mim é evidente que o inglês seja falado nas conferências e que eu também use esta língua para me comunicar com meus colegas estrangeiros. Apesar disso, há áreas de pesquisa em que as línguas principais são outras bem distintas, porque o objeto de pesquisa assim exige.

O valor da língua materna

Há entretanto áreas de pesquisa, nas quais quase só se fala inglês e o mesmo acontece com as publicações. Diz-se com frequência que quem não publica em inglês acaba ficando de fora...

De fato, há disciplinas em que o intercâmbio em inglês funciona particularmente bem, como nas ciências naturais ou naquelas relativas à engenharia, por exemplo. Embora haja, também nestas áreas, uma discussão sobre as consequências do abandono do alemão como idioma acadêmico. O domínio do inglês também se torna cada vez mais importante para o prestígio de um pesquisador. Isso fica visível em diversos rankings, nos quais os cientistas são classificados com base no número de artigos publicados em inglês.

Considero essa situação problemática, pois o valor de uma publicação científica não pode ser avaliado pelo idioma em que ela é publicada. Especialmente as ciências humanas vivem justamente do valor da própria língua. E atualmente deveria existir mais estímulos que despertassem o interesse por outros idiomas.

Aprendendo alemão em aulas de história

Como se poderia conscientizar melhor a respeito do valor de diferentes línguas?

Esta consciência já existe. Hoje pela manhã, por exemplo, me encontrei com uma pesquisadora, que me contou de dois estudantes norte-americanos em sua aula. Estes estudantes estavam prestando atenção e fazendo anotações. Só no fim da aula, ficou claro que eles não eram estudantes da área de Estudos Clássicos, mas, sim, de Administração de Empresas. O professor deles nos Estados Unidos havia aconselhado aos dois frequentar aulas de Estudos Clássicos, porque ali eles poderiam e deveriam aprender o alemão. Ou seja: o valor da diversidade linguística também é percebido fora do país.

O senhor acha que os estudantes deveriam ter aulas em diferentes idiomas, para adquirir uma familiaridade maior com outras línguas?

Quando professores convidados vêm de outros países, é evidente que suas palestras sejam dadas em inglês ou em sua língua materna. Sou basicamente a favor de graduações que estimulem o multilinguismo.

Em cooperação com colegas de diversas universidades da Alemanha e da Europa, criei, por exemplo, o curso European Master of Classical Cultures. Nele, os estudantes estudam em pelo menos duas universidades de idiomas diferentes, podendo escolher entre doze universidades distribuídas por nove países. E têm sempre de se adaptar à língua falada naquele país. Isso, para mim, é um exemplo bem-sucedido de convívio internacional.

Um bem valioso

Isso que dizer que a importância do inglês no campo das ciências deveria ser repensada?

Não tenho nenhuma aversão à língua inglesa. Ela é, sem dúvida, um intrumento necessário, sem o qual não poderíamos mais nos comunicar no campo das ciências. E o inglês nos ajuda muito a disseminar nossas ideias ao redor do mundo. Porém, gostaria de ressaltar que a diversidade linguística é um bem valioso – especialmente no processo de aquisição do saber acadêmico – que deve ser preservado e cultivado.

Source : Goethe-Institut

Mots-clés : allemand anglais langue maternelle multilinguisme

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